Em que momento a cama ficou pequena? Não sei. A gente nunca sabe. Quando coloco a cabeça no travesseiro, seu cheiro está lá. O lençol está quente, faz pouco tempo que você se levantou, mas a cama ficou pequena. Ontem, nossa cama de solteiro era uma king size. Hoje, nossa king size é uma cama de solteiro.
Foram muitos furacões juntos. Passamos juntos por eles. Mas eu, tão bom na argumentação, me senti mudo quando ouvi sua pergunta sobre a cama. Quantas linhas vou precisar para chegar ao óbvio? Para dizer que não sei o motivo.
As suas lembranças estão no meu entorno. Teu gosto ainda está na minha boca. Teu calor na minha cama, mas a minha cama ficou pequena. E eu nem sei dizer porque é que isso aconteceu. Por que somos diferentes? Por que temos sonhos diferentes? Ou porque sou de libra e, você, capricorniana?
É neste momento em que a gente se olha e, sem dizer uma palavra, decide o que fazer. O momento em que todos fazem silêncio e os dois caubóis aproximam as mãos de suas armas. Aquela hora em que se faz suspense sobre quem vai morrer no duelo que parou a cidade. Nosso duelo não parou a cidade, porque não é um duelo. É a vida.
Mas a vida continua, e nós também. Sem comentar uma palavra, sem transformar uma história numa novela das 8. Sem Twitter, sem Orkut, sem vouyers. Somos nós e nossa cama. Que está pequena. Precisamos comprar uma cama nova.
Hoje nós o redescobrimos. Redescobrimos, no dia em que partiu, o quanto ele era bacana. Sua imagem bizarra forjada à base de sem-número de cirurgias plásticas e sua suposta predileção por garotos menores de 18 anos deram lugar a certa nostalgia.
Michael Jackson está morto. Na juventude de seus 50 anos foi embora depois de uma parada cardíaca (mas todos os mortos não são vítimas de paradas cardíacas?). Inesperada para mim. Para você. Para bilhões de nós. Sua morte nos levou aos anos 80, trouxe de volta aos nossos ouvidos “Thriller”, “Bad”, “Billie Jean”. Trouxe também os anos 90 de “Black or White”, “Remember the Time” e “Heal the World”. Ou os anos 70 de “Don’t Stop ‘Til You Get Enough”, “Rock With You” e “Get On The Floor”.
Michael, o Rei do Pop, não teve uma morte rápida. Sucumbiu lentamente à incapacidade de lidar com os graves problemas que guardava dentro de si. Que eram motivo de piadas engraçadas para nós, mas de dor para ele. O mito, a lenda. O homem que transformou a música pop contemporânea era um gênio infeliz e deprimido. Que nos alegrava. Ao ouvir um disco, ver um show ou jogar Moonwalker no videogame.
Nós redescobrimos Michael Jackson na sua morte. Lembramos que ele faz parte da vida de qualquer um que tenha entre 25 e 40 anos. Até mais jovens. Até mais velhos. Michael se foi e não veremos sua redenção. Isso aqui, sorry, é vida, não é um filme na tela de uma confortável sala stadium com som Dolby. Repetimos hoje as mesmas piadas de sempre. Velhas e engraçadas, cruéis e quase inevitáveis. Fizemos piada porque preferimos esconder a dor. Michael se foi. O rei está morto. Viva o rei.
Os minicontos deste blogueiro agora mudaram de endereço. Eles são publicados no Twitter, porque 140 caracteres dá e sobra, creio eu. O primeiro já está no ar. E, antes que alguém pergunte, sim, ele é baseado em fato real. Irritantemente real.
XT4, um amigo marciano, decidiu passar férias em São Paulo. E me pediu que explicasse um pouco mais sobre a cidade. Pensei, pensei e disse: “amigo, isso aqui é uma grande fila”.
Teve dificuldade em entender, o XT4, sujeito literalmente antenado. Contei a ele que aqui as pessoas fazem fila na porta do cinema mesmo nas salas que vendem ingressos numerados. Em Marte, contou meu amigo, temos ingressos numerados para evitar filas e chegar na hora do filme. Me parece bastante lógico.
Mas nós, paulistanos, somos assim. Bom é o que tem fila. Restaurante bom tem fila. Se não tem fila, é ruim, mesmo que sirva a melhor comida do mundo. Tem fila na rua. De carros. Fila na porta da lotérica, porque a Mega-Sena acumulou. Ou não acumulou. Fila no caixa eletrônico. E no caixa tradicional, também. E fila no mercado, e fila pra comprar ingresso. Até quando se compra ingresso pela internet tem fila. Fila para falar com a moça do telemarketing. Você será atendido em até 3 minutos. Fila na porta do motel. Fila pra fazer swing na casa de swing. Só aqui fila não é broxante, pelo visto. Na verdade, deve ser uma espécie de fetiche. “Amor, olha aquela fila, que tesão.”
Desconfio que muitos paulistanos entram na fila sem saber para que serve a fila. Uma fila enorme? Deve ser pra alguma coisa legal. Na semana passada, foram distribuídos 15 mil ingressos gratuitos para peças de teatro. Mais de 1 bilhão de paulistanos foram para a fila. Alguns não sabiam do que se tratava. “Não sei para que é, mas deve ser bom”, disse um.
XT4 ainda não me respondeu. Desconfio que decidiu passar as férias em Mercúrio. Dizem que há boas saunas por lá. Sem filas.
Começou dia 27 de março de 2006. E vai recomeçar neste 22 de junho de 2009. De três a quatro vezes por semana no blog, a qualquer momento no Twitter. Apreciem sem moderação. Respeitável público, o novo Estado de Circo enfim está no ar.