
“Eu tinha 12 anos e queria ir ao Rock in Rio. Não, na verdade eu tinha uns 9 anos, mas achava que tinha 12. Vê se pode, uma criança querendo ir de ônibus para o Rio.”
Eram 9 da noite e autora da frase estava a 1 metro de mim, conversava com uma amiga e tinha o mesmo destino que eu: um show do A-Ha. Não qualquer show, mas o último show que o trio norueguês faria em São Paulo, já que a banda está fazendo sua turnê de despedida. Pelo menos é que dizem Morten Harket, Magne Furuholmen e Paul Waaktaar-Savoy.
A música mais nova do A-Ha que eu tinha na memória era “Move to Memphis”, de 1993. Vaga lembrança do clipe. Lá estávamos, a maioria de nós, para ouvir “Hunting High and Low”, “Take on Me”, “Cry Wolf”, “Stay on These Roads”, “The Living Daylights” e “Crying in the Rain”. Eu, e tantos outros, estávamos ali para nos despedir da adolescência.
O fim do A-Ha de certa forma torna oficial o fim da minha adolescência. Cada uma das seis músicas me remete a uma situação ainda clara, ainda que minha adolescência tenha ficado uns 15 anos para trás. Minha geração já faz dancinhas constrangedoras – eu não faço! – e já somos tiozinhos para quem lota o mesmo Credicard Hall para ver Fresno ou algum similar nacional ou gringo. Mas o A-Ha nos carregou de volta ao fim dos anos 80, ao início da década de 90.
O show foi fraco, eu sei. Uma banda que não soube aproveitar uma plateia que estava doida para se entregar. Um monte de músicas que boa parte daquelas milhares de pessoas não conhecia tomaram conta dos primeiros dois terços da apresentação de pouco menos de duas horas. Mas e daí? Estávamos lá para dizer adeus ao A-Ha, e tanto faz se hoje eles são incapazes de fazer um grande show.
Esperamos pacientemente até “Take on Me”, a última música do show. Lembramos, todos ou quase todos, do que significavam aquelas músicas. Houve quem chorasse. E eu entendo o motivo. Aquela, afinal, era uma página sendo virada nas nossas vidas.

Cenário simples, nada de pirotecnia, telões ou show de luzes. Um palco que provavelmente custa menos dinheiro que o de uma banda brasileira de porte grande. O que The Cranberries ofereceu ao público de São Paulo, na sexta-feira, foi música.
A banda irlandesa, que em agosto anunciou retorno aos palcos, depois de um hiato de sete anos, desembarcou no Brasil sem um disco novo. E isso, para seus fãs, boa parte deles adolescentes do fim da década de 90, foi uma vantagem. O que se viu (e ouviu) no Credicard Hall durante duas horas de show foi uma sequência de hits, muitos deles conhecidos mesmo para quem não tem a banda na estante ou no iPod.
A charmosa Dolores O’Riordan tem um magnetismo raro, cria uma rápida identidade com a plateia. Aos 38 anos, ela segue sendo a razão da banda, muito à frente dos pouco carismáticos Fergal Lawler (bateria) e dos irmãos Noel (guitarra) e Mike Hogan (baixo). É possível perdoar até o exagero nas conversas com a plateia entre as músicas e a auto-ajuda que prega insistentemente. “Vocês são bonitos do jeito que vocês são” ou “Lutem pelos seus sonhos, acreditem e conseguirão”. #LairRibeiroFeelings
Da abertura com “How”, do primeiro disco, até o encerramento, com o hit “Dreams”, foram 22 músicas, com as obrigatórias “Linger”, “Salvation” e “Zombie”. Houve a óbvia promessa de ter feito aqui o melhor show de todos os tempos da última semana e que voltarão em breve. Para delírio de uma plateia já dominada pelo carisma de Dolores.
A turnê sul-americana do Cranberries, que já passou por Santiago e Rio de Janeiro, segue amanhã para Belo Horizonte e, depois, para Porto Alegre, Buenos Aires, Lima, Quito e Caracas. E deixa, no Brasil, a ótima recordação de que um show vale especialmente pela música e não pelos milhões de dólares gastos na produção.
Foto: Divulgação/MRossi

Quarentão charmoso, profissional bem-sucedido, solteirão convicto e dono de um humor ácido. A descrição de Ryan Bingham se confunde com a de George Clooney, ator que dá vida ao personagem em Amor Sem Escalas, que estreia hoje e deve aparecer em várias categorias no Oscar deste ano.
Clooney, vencedor do Oscar por Syriana, é soberbo no papel de um profissional que passa quase todo o tempo em aviões e hotéis. Sua função é emblemática em tempos de crise: demitir funcionários de empresas que vão mal das pernas. Como o próprio personagem define: “Sou emprestado a covardes para demitir os funcionários deles”.
Ryan gosta do que a maioria detesta: passar 322 dias por ano em hotéis, esperar horas para embarcar. Sua ambição é conseguir 10 milhões de milhas no programa da American Airlines, o que dá direito permanente à classe executiva.
Este mundo perfeito do lobo solitário ameaça desmoronar quando uma jovem ambiciosa (Anna Kendrick) tenta implantar um sistema de demissão por webcam, acabando com a rotina de viagens. Ao mesmo tempo, Ryan inicia relacionamento com outra executiva (Vera Farmiga), que começa de forma casual, mas o faz repensar sua vida.
O trunfo de Amor Sem Escalas, além das ótimas interpretações do trio de protagonistas e da direção de Jason Reitman (Juno), é não cair em clichês de comédias românticas. É um filme de humor negro. E com um desenrolar que não subestima a inteligência do espectador.

Conhece a moça? Já foi namorada do Cristiano Ronaldo. Mas isso muitas outras já foram. Também foi namorada do atacante inglês Marcus Bent. Mas outras também devem ter sido. O fato engraçado que cerca Gemma Louise Atkinson, inglesa nascida em 1983, é que ela é apontada como filha de um sujeito improvável. O Mr. Bean.
Sim, é de causar choque. Como esta mulher pode ser filha de Rowan Atkinson? Na internet há discussões apaixonadas a respeito do assunto. Não há registro de fonte séria dando conta de que a moça é filha do ator mais estranho do mundo. Se for filha, não há registros de que seja adotada. Será, então, que o padeiro era bonitão? Porque não acredito em milagres.
When I get to the bottom I go back to the top (The Beatles – “Helter Skelter”)
É o último post do ano. Há um ano eu estava em Caraíva, litoral baiano. Acampado em meio a um trekking de 79 quilômetros que terminaria poucos dias depois, em Trancoso. Hoje estou em São Paulo, esperando a contagem regressiva.
Vou me lembrar de 2009 por causa da morte do Michael Jackson, dos recordes do Cesar Cielo, do fiasco do Palmeiras no Brasileirão. Vou me lembrar de 2009 por causa do Twitter, do ano em que deixei de ser editor de esportes para virar editor de cultura. Vou me lembrar de 2009 como o ano em que o Rio virou cidade olímpica, como o ano em que emagreci 5,8 quilos e que operei a orelha de abano que ninguém reparava. Vou me lembrar de 2009 como o ano em que participei do 1 Contra 100 e que a minha banda voltou à ativa para fazer um show sensacional no Café Paon.
A boa memória não está entre minhas qualidades. Eu teria de pesquisar muito se um dia fizesse uma autobiografia. Não me recordo direito o que estou deixando para trás neste ano. Me lembro dos discos remasterizados dos Beatles, me lembro de brigas, de declarações de amor, do tesão, das tristezas e das alegrias.
No armário da vida, não sei em que gaveta 2009 se encaixou. Mas chegar ao último dia do ano pronto para celebrar mais 365 dias que virão é especial. Hoje é meu 33º último dia do ano. No fim das contas, é apenas mais um dia. Mas é um dia tão bem feito que parece que zeramos tudo para nascer outra vez – especialmente aquele que ganhar na Mega-Sena hoje. Então nos vemos em 2010. Feliz ano novo.

Há cinco anos, Paulo Ricardo deu uma sincera entrevista à Trip. Nela, chegou a se desculpar (ou quase isso) por sua carreira. Ou pela falta de coerência na carreira.
Popstar nos anos 1980 com uma das mais importantes bandas do rock nacional, o cantor se arrependia, algo envergonhado, das mudanças de rumo que tomou após o RPM. Especialmente por ter tentado ser Roberto Carlos em bizarra fase romântica.
Nesta semana, Paulo Ricardo tocou com sua banda, o PR5, no Carioca Club, em São Paulo. O UOL transmitiu ao vivo e eu cliquei a tempo de ver os últimos 20 minutos do show, que teria como convidados amigos do cantor.
Assim que o vídeo carregou, Paulo apareceu para mim aos gritos, apresentando um convidado rock n’ roooooll (sic). E dizia que todos nós, plateia e internautas, nos surpreenderíamos, porque ele curte rock n’ rooooool. Comecei a pensar em nomes improváveis. Cauby Peixoto. Petkovic. Dona Nice, minha ex-professora de ciências. Não. Oscar Niemeyer, talvez. E Paulo Ricardo chama ao palco padre Marcelo Rossi. Interessante. Eu achava que padre roqueiro era o Judas. Judas Priest.
Dali em diante passei talvez pelos 15 minutos mais constrangedores da minha vida. O padre rock n’ roll pedia que a plateia jogasse “as mãozinhas pra cima”. “Mãozinhas” é bem rock n’ roll. O padre falava versos quaisquer enquanto Paulo Ricardo cantarolava hits de U2 e (ah, vá) RPM, entre outros, usando a mesma melodia tocada pela banda.
Acabou a música. Mas não acabou o show de horrores. O padre sugere a Paulo Ricardo, já sem música, que puxe uma ola. Ola, em show de rock, deveria ser camisinha, padre. Se bem que Paulo Ricardo não é rock. Mas a ola não funcionou. Então é hora de encerrar. E padre Marcelo agradece a Deus por aquele momento, a banda dá as mãos e tudo termina com um Pai Nosso. E uma Ave, Maria.
Ave, Maria. Está na hora de Paulo Ricardo ser entrevistado novamente pela Trip. Aquele velho pedido de desculpas já expirou.
Deve haver uma espécie de acordo velado entre a revista Quem e Susana Vieira. Um acordo que prevê o uso do Photoshop para levantar a auto-estima da atriz, talvez.
Se lesse esta introdução, provavelmente ela tomaria o microfone das minhas mãos e diria “Querido, eu não preciso que ninguém levante minha alto-estima. Sou muito bem resolvida, amada, desejada e tenho 40 anos-luz de TV Globo”
A capa da revista nesta semana é um close do rosto de Susana e chamada para uma entrevista em que ela revela que adoraria encontrar um bebê na porta da sua casa.
O que Susana diz na entrevista não chama a atenção e nem tem importância.
O que chama a atenção é notar a pele de uma garota de 20 anos na capa. Um exagero de Photoshop tão incrível que chega a ser patético. A atriz de 67 anos aparece com a pele mais jovem que a de Sabrina Sato, 28 anos, cujo rosto aparece na página 71.
Não é a primeira vez. Susana já causou piadas ao aparecer na capa enrolada em um tecido e com um corpo que era uma evidente mentira contada pelo uso do Photoshop.
Não sei a quem a Quem deseja enganar. E não sei se Susana fica feliz ao ver a mentira da capa. Mas àquele que trata imagens na revista, parabéns. Esta pessoa faz milagres.

Foi estranho. Leila Lopes é encontrada morta, foi o título de matéria que li ao acordar na quinta-feira. Horas depois, a polícia revelou que a suspeita mais forte para a morte da atriz de 50 anos é suicídio, por causa do veneno de rato na comida.
Leila foi mais uma vítima de um moedor de carne, a indústria das celebridades. Deixou o anonimato aos 30 e poucos anos, interpretando uma professora na novela de maior audiência da década de 1990. E, da forma que surgiu, sumiu. Durante anos frequentou a famosa ilha de Ostracismo, no golfo de Nobody.
Há dois anos reapareceu nas manchetes ao ser revelado que tinha cedido aos apelos de uma produtora de filmes pornográficos. Leila fez um filme pornô, mas era evidente que tinha vergonha disso. Tentou convencer a todos nós de que havia feito um pornô-cabeça, um filme que tinha roteiro e história. “É um filme romântico. A única diferença para uma novela é que tem sexo explícito”, afirmou à época. Foi motivo de piadas, claro. Especialmente porque seu par romântico era o ator Carlão Bazuca.
Ao fazer um pornô, Leila assinou seu atestado eterno de celebridade de terceiro escalão. Poucos são capazes de voltar à superfície depois de trancados no calabouço da indústria das celebridades. Foi atacada e ironizada por gente do seu meio, como o novelista Walcyr Carrasco. “A Leila quis retomar a carreira do jeito que deu. Dizer que é um trabalho como outro qualquer é o maior desrespeito ao trabalho das atrizes sérias que estão por aí”, afirmou, em maio de 2008.
Leila tinha tristeza no olhar. Quando era sacaneada pelo Pânico ou pelo CQC ou quando dava umaa entrevista. Leila tinha nos olhos a tristeza de quem conheceu a fama e de quem a fama foi tirada, assim como as oportunidades de trabalho.
Leila foi assassinada num moedor de carne. E sua lembrança será apenas mais um pote com um rótulo envelhecido que foi produzido pela indústria das celebridades.
Mauricio de Sousa tem 74 anos e há 50 começou a criar sua maior obra, a Turma da Mônica. Desenhista que ajudou na formação de gerações de brasileiros, ele está nas manchetes neste começo de semana não por uma coelhada da Mônica ou um latido do Bidu. Mauricio de Sousa tem agora entre seus “filhos de gibi” um personagem gay.
Caio saiu do armário na sexta edição da revista Tina. Amigo da personagem principal, a proximidade dos dois despertou o ciúme de Miguel, namorado da moça. Diante do mal-estar causado, Caio faz a revelação, de forma natural. Afirma que não há razão para preocupação e diz que é comprometido, para em seguida apontar para um outro rapaz, que acha graça. “Ô! Que gente doida”, diz o namorado.
Mauricio prefere não confirmar o que fica evidente na história “O Triângulo da Confusão”. Mas sofreu patrulha e críticas, que respondeu pelo Twitter. “A revista é dirigida a um público adulto jovem, não tem nada a ver com a Turma da Mônica ou o público infantil ou infanto-juvenil”, afirmou. A assessora dos estúdios confirma que é a primeira vez que o assunto é tratado na obra do desenhista.
Caio é um personagem feliz, tranquilo quanto à sua sexualidade, algo que é quase ofensa em um Brasil que se diz liberal, mas esconde racismo, xenofobia, sexismo e homofobia debaixo do tapete. “Uma coisa vai se manter em nossas produções: o respeito pelo ser humano”, diz Mauricio. Feliz do país que tem um Mauricio de Sousa.