O meu amigo Bob
Publicado por Rodrigo Borges em Agosto 29, 2006
Ele está todo dia no meu caminho do estacionamento para o trabalho. Em dia de ensaio, passo com a guitarra e ele fala sempre a mesma frase. “Vamos pegar esse violão e tocar um samba”. Expliquei certa vez que é uma guitarra, não adiantou.
Tem uma cadelinha, como reza a cartilha do bom mendigo. Ter uma cadela é acessório básico do mendigo bem sucedido. Pode ser cachorro, mas cadela é mais tocante, sensibiliza mais e compõe um melhor visual, mais adequado.
Ele é mendigo, mas até hoje não me pediu uma moeda sequer. O que me causa certo espanto, já que, se é um mendigo, o normal seria pedir algum trocado, especialmente aos amigos – eu já sou um amigo, nos vemos todos os dias. Nunca me pediu nada a não ser um samba com o meu violão. Que não é violão, é guitarra.
Ele parece o Bob Marley, outra característica marcante do mendigo bem sucedido. Você nunca viu um mendigo que se preze com aparência de Roberto Carlos ou de Agnaldo Rayol. O mendigo de carreira, técnico, parece o Bob. E meu amigo é a cara do Bob, talvez um pouquinho mais claro.
Hoje passei por ele, ouvi o pedido do samba. As mesmas palavras, sem tirar nem pôr. O farol estava fechado, o que me permitiu perder alguns segundos. “Qual seu nome?”, perguntei. Bob me olhou com indiferença e virou de lado, resmungando alguma coisa. A cadelinha fez o mesmo, mas com ar de desprezo.
Acho que vou tocar o samba pro Bob. Meu amigo está chateado.
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muito sensível ,com leveza nos faz ver o não visto.