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Revisor

Vivia corrigindo as pessoas, não conseguia se controlar. Quando ficou sozinho, decidiu olhar para o espelho e corrigir a si mesmo.

Fernanda Lima faz papel de Fernanda Lima

Fernanda Lima, vejam só, fará papel de modelo na próxima novela das 7. Papel de modelo. Como assim? Fernanda Lima é modelo, não?. Conseguiram, então, um jeito de fazê-la interpretar sem que pareça o cigano Igor.

Fernanda Lima fará papel de Fernanda Lima. Na novela das 7 que nunca começa às 7, assim como a novela das 8 nunca começa às 8. Segundo a Globo, ela vai ter uma disputa qualquer com a personagem de Deborah Secco, que está na capa da Caras chorando a separação do Falcão.

Poderiam dar um jeito de fazer Deborah Secco interpretar Deborah Secco.

Eu, 10.957 dias

Texto publicado dia 20 de setembro de 2003, no extinto AST.

EU, 9.861 DIAS

Sensação estranha a de fazer 27 anos. Talvez porque - oh, não diga - nunca tenha feito antes. Depois dos 18 a vida tem passado rápido. Parece que quando a carta de motorista finalmente está nas suas mãos o tempo não permite que você pense, espere, descanse. Cada momento tem de ser vivido com intensidade.

Desde que me tornei maior de idade centenas de coisas transformaram a minha vida e o mundo. Vi um canalha ser expulso do Planalto, votei para presidente três vezes, me tornei jornalista, conheci dezenas de pessoas muito boas e uma meia dúzia de filhos da puta. Continuei ruim de bola, perdi a virgindade, passei a gostar de rúcula, continuei detestando legumes e viciado em porcarias como Big Mac e bolacha Negresco com leite condensado.

Na minha idade meu pai e minha mãe tinham um filho de três anos - eu mesmo - casa própria, estabilidade profissional e todas estas coisas que, de alguma maneira, todos buscamos. Eu, 27 anos, estudo para mudar de profissão - ou pelo menos ter uma nova profissão no currículo. Continuo gostando do jornalismo, mas não é mais paixão, talvez seja uma relação de respeito mútuo. Uma situação que, imagino, acontece após muitos anos de casamento.

Aqui estou. Cheio de planos, cheio de saúde. Cercado de boas pessoas, bons amigos, bons pais. Num 20 de setembro ensolarado, como não é de costume. Com a guitarra no colo e sonhando com um futuro que seja melhor que o presente. Não, o presente não é ruim, não. Mas o futuro muito melhor será. Que venham os 28.

Aos 30 as coisas não me parecem tão diferentes.

TV sem som tem graça. Ou não

Deixar a TV sem som tem certa graça. Como passar pela TV Record e ver Elba Ramalho participando do Fala que eu te Escuto. Não sei bem se é graça ou susto. Ela está esquisita, parece a Elza Soares. Ou a Hebe. E o cabelo é de Elba Ramalho, mesmo.

Não sei sobre o que falava, mas desconfio que era sobre casais com grande diferença de idade. O marido dela, que deve ter 94 anos a menos, estava ao lado, com cara de paisagem e balançando a cabeça afirmativamente o tempo todo.

Amanhã vou tentar de novo. Depois da Elba no Fala que eu te Escuto talvez eu encontre a Kelly Key na TV Cultura.

Grandes times: Ananindeua

Há certas erradas neste país. A educação é precária, a saúde é lamentável e o Ananindeua não é tratado como um grande.

É o nome de time de futebol mais bacana do mundo. Ananindeua. “Pra quem você torce?”, pergunta um. “Pro Ananindeua”, diz o outro. Muito melhor que time com nome de santo, de árvore ou algum dos milhares de Américas ou Atléticos que há por aí.

O adversário tem medo só de ouvir falar o nome do Glorioso. Ananindeua. Como não temer quem lhe faz enrolar a língua?

Ananindeua é uma cidade que fica na região metropolitana de Belém. Por modéstia, porque o correto é dizer que Belém fica na Grande Ananindeua. Cidade satélite, sabe como é.

O time nunca foi campeão paraense, mas é o atual vice-campeão do estado, o que merece um tanto de respeito visto que o Paraense é dos mais competitivos campeonatos do mundo. Mas, pobre clube, serve de trampolim político para Helder Barbalho, prefeito da cidade e filho do Jader Barbalho (aquele). O que não merece um pingo de respeito, claro.

Mas o Ananindeua, cuja tradição não é manchada por gente que se aproveita de sua importância, está na terceira fase da Série C do Campeonato Brasileiro. E caminha para o octogonal decisivo. Domingo tem jogo contra o Bahia no estádio Curuzu. Ananindeua no Curuzu. E eu em São Paulo. Preciso visitar o Pará.

O chato, versão futebol

É o chato clássico. Você está vendo um jogo, normalmente futebol, pela TV. A tela mostra o placar. Ele se aproxima.

– Quem está ganhando?

Ele não sabe ler? Sabe, mas ele acha legal tirar sua atenção do jogo, puxar papo em vez de simplesmente sentar e ver o jogo.

– 1 a 0

Pronto, falei o placar agora, vamos ver o jogo e…

– Quem fez o gol?

Ah, claro. Esqueci que sempre tem esta pergunta.

– O Zé

Pronto. Está 1 a 0, gol do Zé. Posso voltar a ver o jogo.

– E agora, o que acontece? Vai pros pênaltis?

Maldito mata-mata. Sempre tem essa pergunta. Bem, se não fosse mata-mata a pergunta seria sobre colocação, quantos pontos têm, se sai da zona de rebaixamento, se será líder.

O chato sempre tem mais uma pergunta. O chato no futebol tem perguntas para 90 minutos. Ou 120. E para a disputa de pênaltis, também. Faz análises normalmente estúpidas e tem referências históricas cretinas. E no fim, quer que você dê o aval. “Não concorda?”

Três notas musicais

1 – A Matter of Life and Death, do Iron Maiden, está em nono lugar na lista da Billboard. O que significa dizer que, aparentemente, a banda voltou a fazer sucesso em algum lugar do mundo que não seja o Brasil.

2 – Um deputado russo quer mandar a Madonna para o espaço. Para uma missão espacial, para ser mais preciso. Posso ir junto?

3 – Bono Vox disse que tem medo de subir ao palco, que se sente doente em dia de shows. “Sou tímido.” Mas é claro. E cria mais factóides que o César Maia. E que deputado russo.

Amigável conversa entre amigos

- Não sei o que escrever no blog
- Fale sobre Jesus
- Heim??
- Sempre funciona. Veja nas revistas semanais
- O que tem?
- Quando não tem assunto, Jesus na capa. Vende horrores
- Faz sentido
- Invente uma irmã, uma tia, uma avó
- O Dan Brown já não fez isso antes?
- Fez, mas parece que foi plágio. Plagiar plágio não é crime
- Ah, péssima idéia
- Vá à merda, então
- Pode ser boa idéia

Ingrediente suspeito em bala de criança

- Olha essa bala
- O que tem?
- Imita ovos de dinossauro
- É mesmo! Que engraçado
- Do que será?
- Ah, tutti-frutti. Toda bala é de tutti-frutti
- Ah, aqui. É de framboesa
- Você viu a composição?
- Não…
- Tem dióxido de titânio!
- Hãn?!?
- Aqui, olha. Dióxido de titânio
- Acho que não preciso desta bala, não

E assim economizei R$ 3,90.

Os outros

Eles estão na ilha de Lost e às vezes desconfio que aquilo é somente uma metáfora para a vida de todos nós. Os Outros.

São fantasmas. Eu sou Os Outros também, todos nós somos. E não me orgulho nem um pouco disso. São aqueles que só servem para comparação, muitas vezes cruéis. “O que Os Outros vão pensar?”, pergunta um. Dane-se, respondo eu.

Não deveríamos alimentar Os Outros, deveriamos deixar que morressem à mingua. “Mas com Os Outros você age assim e comigo você age assado”, diz alguém que não percebe que agir assado é melhor. Mas o gramado do vizinho é sempre mais verde.

Os Outros são um pesadelo da vida real. O pesadelo da comparação, o pesadelo de pensar excessivamente no próximo, e não em si mesmo. Na minha vida Os Outros não têm espaço. E se eles não habitassem este mundo seríamos todos mais felizes.

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