Eu não me lembro bem como foi. Me lembro de você contando do diagnóstico. Da sentença. Como se fosse um daqueles caras que vestem roupa laranja e vão esperar numa cela o momento de sentar na cadeira elétrica ou de tomar a injeção final. Parecia surreal demais pra ser verdade. Menos de 30 anos de idade e o diagnóstico que era o último. Um roteiro que devia ter sido escrito pela @realmorte.
Mas estou aqui, ressuscitando um blog que acabou há mais de um ano porque você, como um Garrincha da vida, como um habilidoso jogador de Winning Eleven, driblou todos os zagueiros. Contrariou as previsões. Eram três anos, você aguentou seis, dois deles à espera de pulmões novos. Você aguentou a falta de ar, aguentou a dor. Chorou, teve raiva, questionou Deus e o mundo. Colocou em dúvida a capacidade dos médicos, colocou em dúvida o carinho que as pessoas sentiam por você. Mas você superou tudo isso e conseguiu esperar, com imensa dignidade, o momento em que o telefone tocou. Seus pulmões novos te esperavam.
Eram 9 da noite quando você me avisou. Havia finalmente chegado a hora. Eu me lembro de ter dito “boa sorte”. Porra, “boa sorte”? É só isso? Eu desliguei e não sabia se aquela era a última vez que eu falava com você. Desculpa, amigo. Mas apesar da confiança, da fé, naquela hora eu me lembrei de quando você me falou que nunca antes na história deste país um doente com hipertensão pulmonar havia sobrevivido a um transplante. E minhas últimas palavras antes da cirurgia foram um burocrático “boa sorte”? Bem criativo, só que ao contrário.
Mas estou aqui. Acordei o blog que hibernava porque você venceu mais uma. Eu sei que estas primeiras 72 horas são delicadas e difíceis. Você está aí dormindo profundamente enquanto seu corpo conhece seus novos pulmões. Espero que role um clima entre eles e que vivam felizes para sempre. Pra você estes dois ou três dias vão passar rápido. Pra mim, e para os tantos que aguardam a sua volta, será uma eternidade. Mas não tenha pressa, faça seu tempo. Nós estamos te esperando.
Sempre tive a sensação de que nestes seis anos em que você enfrentou este adversário implacável eu fiz pouco. Você, exageradamente agradecido, sempre falou que ajudei muito, mas nunca pensei assim. Suas vitórias são mérito seu. Há seis anos você mal sabia o que era um blog. Um ano depois programou e ajudou a colocar no ar a segunda versão do Estado de Circo. Criou o genial Poltrona. Se dedicou a entender de HTML, SEO, códigos, números, estatísticas, AdSense, AdWords, Hotwords. Fez novos amigos, fez fontes, fez jornalismo de qualidade. Você, meu irmão, se reinventou. Se transformou para lutar e para vencer. Virou o melhor colunista de TV do país, reconhecido pelos seus pares e pelos leitores.
Você ficou famoso, coisa que você nunca quis ou sonhou ser. E não porque participou de um BBB. Você ficou famoso pela qualidade do seu trabalho e pela dignidade da sua luta. Você é um exemplo para nós. E eu sei que você não se acha exemplo nenhum. Mas você é. Hoje você esteve nos trending topics do Brasil e do mundo no Twitter, dia 30 de novembro sempre será lembrado por nós como o #AleRochaDay. Li algum corintiano dizendo que, se for para celebrar essa sua vitória, ficará feliz se o Vasco for campeão no domingo. Tem ideia da alegria que sua vitória provocou nas pessoas?
Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida. Em 2005 você não tinha filho e o resto da sua vida tinha três anos. Em 2011, você tem o João e o resto da sua vida não tem prazo. Hoje eu ganhei de novo um amigo. O amigo que eu adotei como irmão. Hoje é seu dia. Bem-vindo de volta à vida, brother.