O vento, ali, cortava feito a lâmina da navalha. Era tão escuro que não se enxergava viv’alma. Mas não enxergaria se dia fosse, porque não reconhecia mais ninguém na multidão. E não era mais um na multidão, porque também não se reconhecia.
Estava encostado no muro e, na outra ponta do baseado, passava sua vidinha em revista pela mente, sem se preocupar com o frio de navalha ou com a escuridão vampiresca. Em que momento deixara de lutar pela própria vida? Não, entenda, a saúde era boa. Sujeito forte. Mas se deixou levar. Como aquele vento frio naquela rua escura. A vida decidia sozinha pra onde ia. Não era aquela a melhor maneira de viver.
Não era bom de decisões. Se tivesse 20 vagas no estacionamento, demoraria meia hora para escolher onde pararia. “Prefiro estacionamento cheio. A primeira vaga que aparecer é a minha”, ele mesmo confessava. E se sua decisão tivesse de magoar alguém, era capaz de encostar num muro. E esperar que a vida passasse e aquele frio de navalha lhe cortasse a alma.
Até que queimou o baseado até o fim. A pontinha apagou. Virou, olhou para aquela ponta queimada e apagada. E começou a andar. Porque decidiu que ia desligar o piloto automático e dirigir a vida. No horizonte, o sol anunciava o dia que chegava.
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Eis um grande, grande texto.
31 de August de 2009Entendo essa situação. Pela intensidade das experiências que eu vivi em tão pouco tempo, deixei de dirigir e passei a deixar a vida andar para onde ela quisesse.
De fato, não é a melhor forma de viver. Mas, as vezes, é a única solução aceitável – ainda que seja apenas por uma determinada fase da vida. Só tenho medo de o fato de ter ligado o “tanto faz” seja um caminho sem volta.
1 de September de 2009Muito bom o texto, Rodrigo! Parabéns
1 de September de 2009“Prefiro estacionamento cheio. A primeira vaga que aparecer é a minha”
Ter que escolher é uma porcaria… Sempre significa que você vai perder alguma coisa… E dá a impressão de que não escolher nada, ou seja, perder ambas as coisas, parece até uma boa opção…
Adoro quando você escreve textos assim!
Adorei… intensidade é o que há…
Beijos
2 de September de 2009Mulher é mesmo uma desgraça.
2 de September de 2009Cara, quando você lançar seu livro de crônicas eu estarei lá, primeiro da fila pros autógrafos!
4 de September de 2009Também sou ruim de decisões. E também preciso desligar o piloto automático. Ultimamente nem sei pra onde ele tem me levado.
4 de September de 2009Rodrigo, grande texto, aliás gosto muito do seu estilo, seja literário ou jornalístico (ou poético, como este).
Tomei a liberdade de colocar o texto no meu blog, pois bate com muita coisa.
Parabéns pelo texto.
17 de September de 2009opa! pra variar, fazia tempo que eu não passava aqui. E, pra variar, encontrei coisa boa. vc tá aprimorando seu estilo, my friend.
14 de October de 2009